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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Carnaval e Espíritos


O Carnaval é uma festa religiosa, é o misto dos dias sagrados de Afrodita e Dionísios, vem coroado de pâmpanos [ramos de videira] e cheirando a luxúria. As mulheres entregam-se; os homens abrem-se; os

instrumentos rugem; estes três dias ardentes, coruscantes são como uma enorme sangria na congestão dos maus instintos.

[RIO, João do. Cordões. In: A alma encantadora das ruas: crônicas. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 127, com adição]

O Folião Redimido

A cidade, regorgitante, era um pandemônio. (...)

Trabalhadores do nosso plano diligenciavam atendimentos a pessoas encarnadas (...); urgências para recém-desencarnados em pugnas decorrentes da ingestão de bebidas alcoólicas, de desvarios sexuais, das interferências subjugadoras de seres obsidentes...

(...) (...) Subitamente fui colhido por uma surpresa, que me tomou de emoção feliz.

Vislumbrei um diligente cooperador que me fazia recordar célebre poeta e compositor, cujas músicas populares foram-me familiares quando na Terra.

Circunspecto, atendia, gentil, no seu labor, sem alarde, nem afetação, ao trabalho que lhe fora confiado.

Acerquei-me e indaguei-lhe o nome, confirmando a suspeita quanto à sua personalidade.

Sem qualquer indelicadeza inquiri, para minha própria aprendizagem, como conciliava a sua atitude de ex-sambista, vinculando às ações do Carnaval, com a atual, longe do bulício festivo em trabalhos de socorro ao próximo? O amigo assumiu uma posição meditativa e, sem ressentimento, respondeu:

- Enquanto, na Terra, (...) Sem resistências morais, resvalei, não poucas vezes, carpindo, na soledade e na fuga pelos alcoólicos e drogas outras, o tormento que me não deixava.

Amei muito, certamente que um amor desconcertante, aturdido, que passeava pelos bares de má fama e cabarets, sorvendo toda taça de aflições (...).

A desencarnação colheu-me a vida física ainda jovem.

Despertei sob maior soma de amarguras, com fortes vinculações aos ambientes sórdidos, pelos quais transitara em largas aflições.

(...) As muitas composições pessoais e aquelas em parceria, no entanto, inspiravam e despertavam ternura, retratando situações e acontecimentos do coração, que provocam emoções positivas...

(...) a minha memória gerou simpatias e a mensagem das músicas provocou amizades, graças a cujo recurso fui alcançado pela Misericórdia Divina, que me recambiou para outros sítios de tratamento e renovação, onde despertei para realidades novas.

Passei a compreender as finalidades superiores da vida, que eu malbaratara, descobrindo, porém, que é sempre tempo de recomeçar e de agir, iniciando, desde então, a composição de outros sambas ao compasso de bem, com as melodias da esperança e os ritmos da paz, numa Vila de amor infinito...

O Carnaval, para mim, é passado de dor e a caridade, hoje, é-me festa de todo dia, qual primavera que surge após inverno demorado, sombrio.

Calou-se e sorriu algo triste, para logo concluir:

- Apesar da noite vitoriosa, o dia de luz sempre triunfa e o bem soberano tudo conquista...

Abracei-o, reconhecido, e fui-me adiante a meditar nos apontamentos vivos que acabara de recolher.

(Trecho de FRANCO, Divaldo Pereira; pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Nas Fronteiras da Loucura, Salvador: LEAL, 1982, cap. 6, pp 51 a 56. Obs.: O título desse trecho foi adicionado aqui).

Nossa hipótese diz que o “Espírito Folião Redimido” é Noel Rosa (1910-1937), desencarnado aos 26 anos de tuberculose. A palavra Vila, que aparece no texto, possivelmente é uma analogia ao bairro carioca de Vila Isabel, berço de Noel e bastante citado em suas composições.

O Espírito Noel Rosa deixou canções, através de médiuns, que exaltam, dentre outras coisas, Deus e a cidade do Rio de Janeiro.

O samba não é pecado, se nasce do coração

Jesus nasceu festejado, no meio de uma canção

Um Rio belo e risonho, canto ainda a serenata

em tuas noites de sonho, em tuas noites de prata.

(Espírito Noel Rosa através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, jan. 1963).


A Triste História de um Carnaval que não teve Fim
 (...) Há criaturas que possuem o dom de convencer.

Peixoto de tal parecia ser uma delas. Com a simples fantasia de “pirata”, fazia mais sucesso que os arlequins e as rainhas-de-sabá. Certamente não era a mais rica, nem a mais original. Era mesmo o dono, quem “valorizava” a veste: chegou, brincou e convenceu. Convenceu mesmo.

Um olho tapado, à guisa de Almirante Nelson, espada em punho, saltava, duelava, suava, cantava e... convencia!

À saída do baile os comentários foram unânimes:
- “O Peixoto é o maior, hein?”

Na noite seguinte ele não apareceu.

A turma o esperava, certa de que todos teriam a repetição do entretenimento; decepcionaram-se com a ausência.

- “Amanhã será o último dia, Peixoto tem que vir!”

Combinaram e foram à casa dele.

Sentia-se indisposto e, por isso, não fora. E continuava sem vontade de ir. Não era doença não, era mesmo uma vontade esquisita de não ir.

A “boa turma” tanto fez que Peixoto cedeu.
Afinal... se era indispensável... Animou-se e foi.

Antes houvesse atendido àquela voz estranha
que o aconselhava no recôndito da consciência:

- “Não vá, Peixoto, não vá!”

Ele mesmo nem ficou sabendo disso.

Na última noite momesca, Peixoto estava exuberante,  habilidoso, perfeito, inexcedível!

O baile caminhava para marcar o fim do carnaval.
“Aproveita que é hoje só!”

Poucos pares se aguentavam de pé, mas o pirata Peixoto estava firme no seu papel, sempre admirado, sempre lisonjeado. Enfim, a marcha final!
Acabou-se o baile! Cessaram todos de pular. Todos. Todos, disse eu?

Quase todos, porque o pirata Peixoto continuava
a representação.

Acharam graça. No princípio. Meia hora depois, prosseguindo o seu próprio carnaval, os que restavam do grupo começaram a estranhar. Levaram Peixoto para casa. Esgrimindo sempre; sempre perfeito, sempre inexcedível.

No dia seguinte, tiveram a notícia. Ele dormira, mas, mal acordado, na quarta-feira de cinzas, retomara imediatamente a espada de madeira, recomeçando a batalha.

Tornara-se o pirata Peixoto presa de autêntica subjugação.
A medicina o classificou como louco.

Para ele o carnaval só teve fim, quando desencarnou. Isto, aos olhos dos mortais, porque “do outro lado”, continuou, por muito tempo ainda, a batalha invencível, o baile infernal!

(Trecho de BASTOS, Demétrio Pável. A Voz do Coração. Juiz de Fora-MG:
Instituto Maria Departamento Editorial, 1986, pp. 111 a 114)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Algumas designações

Espírito Santo - falange dos Emissários da Providência que superintende os grandes movimentos da Humanidade na Terra e no Plano Espiritual.

Reino de Deus - estado de sublimação da alma, criado por ela própria, através de reencarnações incessantes.

Céu - esferas espirituais santificadas onde habitam Espíritos Superiores que exteriorizam, do próprio íntimo, a atmosfera de paz e felicidade.

Milagre - designação de fatos naturais cujo mecanismo familiar à Lei Divina ainda se encontra defeso ao entendimento fragmentário da criatura.

Mistério - parte ignorada das Normas Universais que, paulatinamente, é identificada e compreendida pelo espírito humano.

Sobrenatural - definição de fenômenos que ainda não se incorporam aos domínios do hábito.

Santo - atributo dirigido a determinadas pessoas que aparentemente atenderam, na Terra, a execução do próprio dever.

Tentação - posição pessoal de cativeiro interior a vícios instintivos que ainda não conseguimos superar por nós mesmos.

Dia de juízo - oportunidade situada entre dois períodos de existência da alma, que se referem à sementeira de ações e à renovação da própria conduta.

Salvação - libertação e preservação do espírito contra o perigo de maiores males, no próprio caminho, a fim de que se confie à construção da própria felicidade, nos domínios do bem, elevando-se a passos mais altos de evolução.

O Espiritismo tem por missão fundamental, entre os homens, a reforma interior de cada um, fornecendo explicações ao porquê dos destinos, razão pela qual muitos conceitos usuais são por ele restaurados ou corrigidos, para que se faça luz nas consciência e consolo nos corações. Assim como o Cristo não veio destruir a Lei, porém cumpri-la, a Doutrina Espírita não veio desdizer os ensinos do Senhor, mas desenvolvê-los, completá-los e explicá-los “em termos claros e para toda a gente, quando foram ditos sob forma alegóricas”.

A rigor, a verdade pode caminhar distante da palavra com que aspiramos a traduzi-la.

Renove, pois, as expressões do seu pensamento e a vida renovar-se-lhe-á inteiramente, nas fainas de cada hora.

pelo Espírito André Luiz - Do livro: O Espírito da Verdade, Médium: Francisco Cândido Xavier.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Distonias Espirituais: As Auto Obsessões

1. O ser humano na visão espírita

De acordo com a visão espiritista, o nosso universo material nada mais é do que o mundo dos efeitos, já que, em dimensões espaciais superiores, inacessíveis aos nossos sentidos físicos, encontra-se o campo livre da energia do espírito, o verdadeiro mundo das causas.

Allan Kardec, o respeitável sistematizador do Espiritismo, no discurso introdutório de “O Livro dos Espíritos”, acena com a realidade multidimensional do ser encarnado ao afirmar que o mesmo está constituído por três partes essenciais: o espírito, o perispírito e o corpo físico a se influenciarem mutuamente, muito embora, cada qual a vibrar na dimensão espacial que lhe é própria.

Portanto, o homem nada mais é do que um espírito encarnado (alma), precedente ao berço e sobrevivente ao túmulo, verdadeiro viajor cósmico a estagiar momentaneamente no Planeta Terra. Por ser um “continuum” espaço-temporal, o homem-espírito alberga em seu psiquismo de profundidade a memória extra cerebral, repositório perene de tudo aquilo que vivenciou em forma de experiências positivas e negativas no decorrer de toda a sua trajetória evolutiva.

2. As Leis que embasam a evolução

Ao lado deste raciocínio, pode-se aditar, ainda, outros fatores necessários à compreensão das distonias espirituais, como por exemplo as leis da Palingenesia ou Reencarnação e da Ação e Reação ou Causa e Efeito. A Reencarnação regula os nascimentos sucessivos de um mesmo espírito, verdadeira lei maior, a qual todos se encontram subordinados em seus anseios evolutivos. Já a lei da Causa e Efeito bem administra os valores morais incorporados ao nosso patrimônio espiritual, permitindo àquele que se encontra em dissonância com a harmonia universal, pelo mau uso do livre arbítrio, retornar ao seu equilíbrio inicial, mesmo que às custas de sofridas experiências tidas na conta de vivências expiatórias.

Este é o chamado paradigma espírita, e graças a ele, ampliamos a nossa compreensão das enfermidades ao examiná-las à luz da realidade transcendental dos seres.

3. As causas espirituais das enfermidades

Assim sendo pode-se dizer que a maioria das doenças experimentadas pelos homens é de gênese espiritual. Quando elas emergem da intimidade da própria alma são denominadas de patologias anímicas, caso contrário, são reconhecidas como obsessivas, desde que decorram de influenciações espirituais externas.

Allan Kardec, examinando as intrincadas questões da alma, propôs uma classificação dos distúrbios espirituais, considerando as seguintes possibilidades: obsessão simples, fascinação, subjugação e auto obsessão. A respeito desta última firmou o seguinte juízo em “Obras Póstumas”, item 58:

“As contrariedades, que mais comumente cada um concentra em si mesmo, sobretudo os desgostos amorosos, fazem cometer muitos atos excêntricos que se estaria errado em levar à conta da obsessão. Frequentemente, pode-se ser obsessor de si próprio.”

4. Conceito de auto obsessão

Na auto obsessão, é a própria mente em torvelinho que gera um verdadeiro estado de desequilíbrio patológico, de inadequação aos desafios cotidianos ou de comportamento imaturo a expressar o lamentável estado de penúria espiritual em que o estagiário terreno ainda se encontra.

5. Causas mais frequentes das auto obsessões


O homem, ante as solicitações costumeiras e os mais variados desafios existenciais, nem sempre se conduz com a dignidade e o equilíbrio desejáveis. Inebriado com os ouropéis da vida e, profundamente arraigado às viciações milenares que embrutecem o espírito, ora se deixa influenciar por impulsos primários, como a inveja, o egoísmo, a luxúria e o ciúme, ora se entrega a injustificáveis explosões coléricas, motivadas pelo cultivo prolongado da irritabilidade e da impaciência.

Na qualidade de autêntico enfermo da Alma, facilmente descontrola-se e comete atos de agressividade no trabalho, no trânsito e, infelizmente, na intimidade do próprio lar. Ofende aos seus entes queridos de maneira desnecessária, cria situações de constrangimento e tristeza e, às vezes, até de revolta entre os familiares, contribuindo, por fim, para a implantação da desarmonia doméstica por períodos bastante prolongados.

6. Causas complexas das auto obsessões

Mais adiante identificamos aquelas criaturas dotadas de uma personalidade menos estruturada e fragilizada em suas bases psicológicas. Revelam-se indecisas e sem vontade firmada. Habitualmente, diante da lida rotineira, se deixam enredar nas malhas de múltiplos desajustes por alimentarem insistentemente a terrível sensação de medo e insegurança, de uma forma obsessiva, chegando, mesmo em alguns casos, a desenvolverem complicada distonia mental, conhecida como Síndrome do Pânico, nem sempre bem equacionada pelos métodos terapêuticos tradicionalmente utilizados. São situações chocantes e bem caracterizadas, nas quais despontam os angustiados de todos os matizes, infelizes e sofredores por antecipação.

Tal contingente de auto obsidiados faz da preocupação exagerada a sua rotina de vida e, em meio ao desgastante comportamento neurótico, alimentam o temor de doenças imaginárias, o receio infundado com o bem-estar dos filhos, ou a ideia de que a qualquer momento, perderão os seus bens materiais. Formam o imenso exército de neuróticos crônicos, muito embora, por se acomodarem à situação vivenciada, pouco se esforcem para suplantar os maus pensamentos, as ideias hipocondríacas e as atitudes obsessivo- compulsivas, preferindo estagnarem na inércia moral a que habitualmente se entregam.

7. Ciúme – o câncer da Alma

Identificamos ainda significativa quantidade de criaturas excessivamente desconfiadas e portadoras de uma das mais graves formas de patologia anímica conhecida: - o ciúme - .

O ciumento é aquele indivíduo que, por estreiteza de visão, imagina insistentemente a possibilidade de estar sendo traído pelo cônjuge a quem tanto ama. E apesar do amor que verdadeiramente alimenta, falta-lhe a maturidade emocional para a convivência a dois. O ciumento não sabe expressar os seus sentimentos mais enobrecidos, graças à insegurança que o tortura interiormente, a ponto de agredir a quem diz amar sem nenhuma razão plausível, não medindo as consequências funestas de suas atitudes infelizes.

8. Educação evangélica como recurso terapêutico

Como vimos, múltiplas são as manifestações puramente anímicas de natureza auto obsessiva. Quase sempre, encontram-se relacionadas às deficiências educativas no contexto evolutivo do espírito. Constituem-se inegavelmente, tais atitudes imaturas, verdadeiras portas de entrada para as obsessões secundárias, induzidas pelos espíritos vingativos ou aproveitadores, com o fito de intensificar as más tendências individuais.

Daí o cuidado que se deve ter no comportamento habitual exercitado no decorrer da vida de relação. Impõe-se, por parte do ser inteligente, a necessidade de melhor gerenciar as emoções, identificar as propensões negativas e represar os impulsos inferiores, tentando substituí-los progressivamente pela vivência de sentimentos mais enobrecidos, tudo com a finalidade de aperfeiçoar a experiência terrena.

Por isso, as condutas aberrantes devem ser notificadas uma a uma, mediante análise conscienciosa da própria maneira de pensar e agir. Uma vez identificados os próprios defeitos, empenhar-se o indivíduo no esforço de reforma íntima, pois só a vivência evangélica, - considerada pelos psicólogos de vanguarda a maneira mais adequada de comportamento inteligente -, permitirá a substituição das atitudes menos felizes, típicas das auto obsessões, por padrões salutares e equilibrados de inter-relacionamento social.

Vitor Ronaldo Costa

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

VAMOS ESTUDAR REFLETINDO?!

- Todos somos médiuns?

Todos somos portadores da mediunidade natural que é o canal psíquico pelo qual recebemos as influências boas ou ruins que estimulam as experiências do Espírito na vida terrena. Porém, nem todos somos médiuns, conforme denominou Allan Kardec.

- Então o que é um médium?

Segundo Allan Kardec, médium é todo aquele que sente a presença ostensiva dos Espíritos, seria aquele que serviria de ponte entre o mundo visível e o invisível. A prática da mediunidade é o intercâmbio entre o mundo físico e o mundo espiritual. A faculdade mediúnica liga-se a uma disposição orgânica, porém o uso que se faz.

- Como sabemos se somos médiuns? E se formos, o que devemos fazer?


Allan Kardec diz que todos somos mais ou menos médiuns, pois todos possuem a mediunidade natural, canal psíquico através do qual somos estimulados ao crescimento. Entretanto, médiuns propriamente ditos são aqueles que recebem manifestações ostensivas dos Espíritos. A única forma de sabermos se temos ou não mediunidade ostensiva é nos colocando como servidores sinceros da causa de Jesus. Ou seja, deveremos primeiro fazer parte da equipe de trabalhadores de uma casa espírita e lá, através dos estudos sérios e da disciplina, procurarmos entender antes as nuanças do contato com os Espíritos. Allan Kardec diz em O Livro dos Médiuns, que não se deve nunca iniciar um trabalho de intercâmbio espiritual sem estudar a mediunidade. Existem algumas pessoas que sentem influências dos Espíritos, em diversos graus de intensidade, e acham que, por isso, estão prontas para trabalhar nesse campo. Geralmente não aceitam a ideia de que precisam se instruir mais e mais. Vão às casas espíritas somente para trabalhar com mediunidade e se não a aceitam naquela, buscam outra, e assim permanecem por toda a vida.

- Isto pode acarretar algum problema para as pessoas?

Sim, pode. Desde perturbações leves, até obsessões graves, o que infelizmente não é pouco frequente, pela forma com que a mediunidade é tratada no Brasil. Todos somos suscetíveis às más influências devido às imperfeições próprias dos Espíritos que habitam os planetas de provas e expiações. Em muito maior escala são os médiuns que, se não cuidam do estudo e do preparo moral, funcionam como verdadeiras antenas e situam-se como focos frequentes de perturbações espirituais. Se os médiuns não tiverem os cuidados necessários com a sua edificação e se colocarem a serviço do intercâmbio sem o devido preparo, poderão cair presas de Espíritos pouco adiantados de que está cheia a atmosfera.

- Existe a incorporação de Espíritos?

No sentido semântico do termo não existe incorporação, pois nenhum Espírito conseguiria tomar o corpo de outra pessoa, assumindo o lugar da sua Alma. O que ocorre é que o médium e o Espírito se comunicam de perispírito a perispírito, ou seja, mente a mente, dando a impressão de que o médium está incorporado. Na mediunidade equilibrada, o médium tem um maior controle de sua faculdade e o fenômeno mediúnico acontece mais a nível mental. Nos processos obsessivos graves (doenças mórbidas causadas por Espíritos inferiores), onde a mediunidade está perturbada, podem ocorrer crises nervosas. Observadores de pouco conhecimento podem achar que um Espírito mau apoderou-se do corpo do enfermo. Foi esse fenômeno que deu origem às práticas de exorcismo.

- Alguém pode ser obrigado a desenvolver sua mediunidade?

Ninguém é obrigado a desenvolver a mediunidade. É errada a ideia de que a mediunidade é a causa de sofrimentos e desajustes das pessoas. O que pode ocorrer é a quebra de um compromisso assumido antes da encarnação e, consequêncais naturais de um metabolismo formado para ser instrumento deste intercâmbio mediúnico. Geralmente, sofre-se por ignorância e por falta de cuidados com a vida no plano material. Aqueles que quiserem dedicar-se à tarefa mediúnica deverão trabalhar para vencer suas imperfeições, além de ter que estudar a Doutrina Espírita com seriedade e disciplina. Um médium que não toma esses cuidados, poderá permanecer sob a influência dos Espíritos maus.

- As cirurgias espirituais são realmente feitas por Espíritos? Nesse caso, como pode um Espírito elevado ser antiético, exercendo ilegalmente a medicina?

Sim, as cirurgias espirituais são feitas por Espíritos de médicos que atuam no corpo perispiritual, utilizando de técnicas ligadas à ciência médica, usando fluidos humanos e espirituais, nada fazendo nesse campo que fira as leis humanas. Um Espírito elevado jamais transgride qualquer lei. As curas realizadas em nome do Espiritismo, praticado com seriedade, são feitas utilizando apenas a fluidoterapia. No Atendimento e Tratamento nas Sessões de Oriente e Cura, são realizadas várias cirurgias espirituais no Perispírito e Duplo Etérico dos pacientes. As cirurgias mediúnicas feitas com instrumentos cortantes não são consideradas trabalhos espíritas. As cirurgias mediúnicas com instrumentos cortantes não devem ser praticadas em centros espíritas orientados pela doutrina de Allan Kardec, justamente por ferir a legislação vigente e não tratar-se de uma prática que possa ser exercitada por qualquer pessoa. As curas no Espiritismo são feitas exclusivamente com a fluidoterapia.

- Gostaria de saber se é possível que uma pessoa que está frequentando um Templo de Umbanda não possa ajudar por não ter dons mediúnicos?


Qualquer pessoa pode ajudar num Templo de Umbanda, desde que disponha de boa vontade e preparo moral e doutrinário adequados. Isso se consegue com estudo e boa dose de seriedade, dedicação, abnegação e disciplina. Não é necessário ter dons mediúnicos para servir. Existem inúmeras frentes de trabalho no Templo, onde se poderá desempenhar tarefas que não dependem da mediunidade, são os chamados Voluntários.

- É certo o procedimento que alguns centros espíritas têm de colocar pessoas, que estão indo pela primeira vez à casa, em trabalhos mediúnicos?

Allan Kardec diz que não se deve lidar com a mediunidade sem conhecê-la. O bom senso e a razão nos falam a mesma coisa. Em todos os departamentos da vida o homem busca aperfeiçoar-se para servir melhor. Sem conhecer o seu ofício não poderá desempenhar a tarefa a que se propõe com conhecimento de causa. Portanto, colocar pessoas para lidar com Espíritos sem se preparar para isso é o mesmo que realizar experiências químicas sem conhecer as leis da química, diz o Codificador. Seria uma insensatez. Os medianeiros devem ser preparados com muita cautela para servir nesse campo. Primeiro devem estar inseridos nos trabalhos habituais da casa, servindo com dedicação e seriedade, transformando-se em trabalhadores. Devem ser instruídos nas aulas sobre a Doutrina, os Rituais e o Evangelho e depois, então, poderão ser experimentados no ministério da mediunidade. A pessoa que chega à casa espírita pela primeira vez com a intenção de servir apenas no campo da mediunidade não entendeu ainda o papel do Espiritismo em sua vida, muito menos a oportunidade que está tendo de servir com equilíbrio no campo do Bem. Necessita de instrução nesse ponto. Se for sincero o seu desejo de servir, permanecerá no aprendizado. Se não, procurará outra casa que lhe dê o que deseja.

- O que vem a ser educação e desenvolvimento mediúnico e qual a diferença da Desobsessão?

O termo educação e desenvolvimento da mediunidade são usados para o mesmo fim. Nós preferimos desenvolvimento, pois na verdade no trabalho que é feito nessas reuniões, a mediunidade vai se desenvolvendo na medida do esforço e da característica pessoal do médium. O termo educação pressupõe que a pessoa já tem uma mediunidade ostensiva e vai apenas educá-la, o que na maioria das vezes não é verdade. Mas isso é uma questão de forma. O que se deve saber é que nas reuniões de desenvolvimento estamos trabalhando o dom para servir mais e melhor, ou seja desenvolvendo e disciplinando um tarefeiro de intercâmbio espiritual, para desempenhar suas atividades servindo a Jesus no amparo dos necessitados da alma.

- O Cristão Espírita deve buscar na sua reforma íntima mudar a alimentação, evitando ou eliminando as carnes de seu cardápio? O consumo de carne prejudica o exercício mediunidade?

O objetivo da Doutrina Espírita é modificar moralmente o homem, fazendo-o melhor em todos os sentidos. A ideia de que o "não comer carne" contribui para a purificação do Espírito vem das doutrinas esotéricas orientais. Isso não tem qualquer fundamento lógico e contraria as orientações dos Espíritos Superiores a respeito do assunto. O que acontece é que a carne vermelha tem uma metabolização mais difícil que as carnes brancas ou alguns vegetais, tendo o organismo que despender maior gasto energético para concretizá-la. O hábito alimentar ocidental é cheio de vícios e temos que nos disciplinar para conter os excessos alimentares, que como todo excesso, faz mal para a saúde do corpo. Um corpo em desequilíbrio traz consequências danosas ao Espírito e vice-versa. Portanto, é prudente alimentar-se com moderação sempre. Nos dias de atividades mediúnicas, no Cruzeiro da Luz, os Médiuns são instados ao consumo de alimentação mais leve, sem a participação da carne vermelha, para evitar desgastes energéticos com a digestão e proliferação de toxinas do animal no ectoplasma a ser utilizado, facilitando, assim, a tarefa de intercâmbio das energias espirituais na fluidoterapia oferecida nos diversos Tratamentos oferecidos pelo Templo. Mais que o consumo de carne o que afeta profundamente a nossa vida são os vícios morais, esses um tanto mais difíceis de serem erradicados, do que o simples costume de se comer carne.
 
Fonte: Cabana Caboclo Rompe-Mato, SP.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

VAMOS ESTUDAR REFLETINDO?!

- Que são fluidos?

Os fluidos são o veículo do pensamento dos Espíritos, tanto encarnados quanto desencarnados. Todos estamos mergulhados no fluido cósmico universal, substância básica da Criação, que varia da imponderabilidade até a ponderabilidade. Os fluidos espirituais estão impregnados dos pensamentos dos Espíritos, portanto varia de qualidade ao infinito. A atmosfera fluídica é formada pela qualidade dos pensamentos nela predominantes.

- O que é o Passe?

É a transferência de fluidos de uma pessoa a outra, através da prece e imposição de mãos, procedimento largamente usado nos centros espíritas. As energias são oriundas dos fluidos humanos (do passista) e fluidos espirituais (dos Espíritos que trabalham com a equipe de médiuns). Existem três tipos de magnetismo: o humano, o espiritual e o misto. O tipo de magnetismo utilizado nas casas espíritas é o misto, pois à ação dos encarnados soma-se a ajuda benéfica dos Espíritos que trabalham na área, qualificando, direcionando e potencializando os fluidos.

- Qual diferença entre passe magnético e passe espiritual?

O passe magnético é aquele onde a energia utilizada provém apenas do encarnado, ou seja, é utilizado o magnetismo humano. No passe espiritual são utilizados os fluidos dos Espíritos, que do mundo invisível agem sobre os indivíduos. No passe misto existem os dois tipos de fluidos, o humano e o espiritual, sendo largamente utilizado nos centros espíritas na cura das doenças físicas e psíquicas.

- Existem milagres?


O milagre é fenômeno que não se consegue explicação racional e nos parece sobrenatural. Na verdade é apenas a manifestação intencional (provocada por agentes conscientes) ou espontâneas (causadas por agentes inconscientes) de determinadas leis da natureza, ainda desconhecidas pelo homem. Deus criou leis perfeitas e imutáveis. Se o milagre existisse, como suspensão dessa leis, as mesmas não seriam perfeitas e imutáveis.. O que existe é a ignorância dos princípios que regem as leis de Deus. O que pode parecer milagre para uns, é perfeitamente explicável para outros. Por exemplo um índio selvagem que visse um eclipse do sol, acharia aquilo um milagre, mas estudando astronomia, percebe que um astro se sobrepõe a outro com um fenômeno natural. A ciência ajuda na desmistificação dos milagres como suspensão da Leis de Deus. Chegará o dia em que todos conhecerão as leis que regem os fluidos, a mediunidade, a influência do mundo espiritual sobre o mundo físico, a ação dos Espíritos sobre a matéria etc.

- O princípio vital absorvido pelo corpo humano é o mesmo que anima os animais e vegetais?

O princípio vital é o mesmo, mas sofre modificações segundo as necessidades das espécies.

- O fluido animalizado do médium, nome dado por alguns autores, é o mesmo que ectoplasma?

É a mesma coisa. Apenas uma questão de forma.

- O que é água fluidificada?

É a água magnetizada por fluidos espirituais e humanos, realizada com as preces e imposição das mãos.

- O que é a prece?

A prece é um meio que Deus nos dá de podermos entrar em contato consciente com Ele, com Jesus e com os Bons Espíritos. Através da Prece Adoramos e Louvamos a Deus; Louvamos e encontramos Jesus, nosso Pastor e Guia; evocamos e contactamos os Bons Espíritos. Pela Prece, enfim, Louvamos e Peticionamos ajuda e entendimento. É um ato de comunhão dos nossos pensamentos com Deus, Jesus e os Espíritos Superiores. Através da prece entramos em sintonia com o plano espiritual, e somos assistidos por Espíritos bons. A prece feita com sinceridade de sentimentos atrai o concurso dos amigos espirituais ou do anjo da guarda que nos assiste, dando-nos sustentação em nossas dificuldades.

- Quando realizamos uma oração direcionada a Jesus ou aos bons Espíritos, nesse mesmo instante estaremos sendo ouvidos por Eles?

A prece feita com sinceridade e fervor é sempre ouvida por Jesus e pelos Espíritos superiores encarregados de fazer cumprir a vontade de Deus: “Buscai e achareis, batei e se abrirá...” Os Bons Espíritos sempre nos assistem, dependendo do nosso merecimento, não importando muito a quem estamos endereçando o pedido. Sugerimos a leitura do Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVII, itens 5 a 15.

- Qual a importância da oração Pai Nosso?

Colocaremos aqui a opinião de Allan Kardec, encontrada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 28, item 2, por acharmos de importância que se conheça a opinião dele sobre o assunto, já que no movimento espírita, infelizmente, não se têm o hábito de valorizá-la por acharem tratar-se de prece católica. Diz o mestre o seguinte: "De todas as preces é a que eles consideram em primeiro lugar, seja porque vem do próprio Jesus (Mateus, VI:9-13), seja porque ela pode substituir a todas as outras, conforme a intenção que se lhe atribua. É o mais perfeito modelo de concisão, verdadeira obra-prima de sublimidade, na sua simplicidade. Com efeito, sob a forma mais reduzida, ela consegue resumir todos os deveres do homem para com Deus, para consigo mesmo e para com o próximo. Encerra ainda uma profissão de fé, um ato de oração e submissão, o pedido das coisas necessárias à vida terrena e o princípio da caridade. Dize-la em intenção de alguém é pedir para outro o que desejaríamos para nós mesmos".

- O que acontece com o nosso Espírito quando morremos?

Continuamos com nossa individualidade, isto é, teremos os mesmos conhecimentos, qualidades e defeitos que tivemos em vida. A morte não nos livra das imperfeições. Seguiremos pensando da mesma forma. Nosso Espírito será atraído vibratoriamente para regiões astrais com que se afiniza moralmente. Se formos excessivamente apegados à vida material, ficaremos presos ao mundo terreno, acreditando que ainda estamos fazendo parte dele. Essa situação perdurará por certo tempo, até que ocorra naturalmente um descondicionamento psíquico. A partir desse ponto, o Espírito será conduzido às colônias espirituais, onde receberá instrução para mais tarde retornar à carne. Se, contudo, estivermos apegados a Jesus e aos Seus ensinamentos libertadores nada temos a temer da morte, pois será um desencarne para nos conduzir às regiões superiores; “Ainda que eu ande pelo vale da sombra e da morte, não temerei mal algum. Junto a mim Seu bastão, o Seu cajado, eles são a minha força” (Sl.23).

- O que acontece com os recém-nascidos que logo morrem? E por que isto acontece?


O Espírito de criança morta em tenra idade recomeça outra existência normalmente. O desencarne de recém-nascidos, freqüentemente, trata-se de prova para os pais, pois o Espírito não tem consciência do que ocorre. A maioria dessas mortes, entretanto, é por conta da imperfeição da matéria.

- Porque pessoas jovens, boas, desencarnam prematuramente, enquanto há pessoas más que vivem por muitos anos?

Se olharmos as coisas dentro da ótica materialista, certamente não encontraremos resposta para esta delicada questão. Se, no entanto, partirmos do princípio que somos seres imortais e que estamos em uma escalada evolutiva em direção à perfeição, compreenderemos com facilidade que a vida terrena é apenas parte desse processo. A verdadeira vida é a espiritual e quando encarnados cumpre-se as etapas necessárias ao aprimoramento do Espírito imortal. As diferenças existentes entre as pessoas são as várias etapas em que o Espírito se encontra em termos de evolução. O viver muitos anos, portanto, é muito relativo. A vida terrena é a escola que a criatura precisa para se aprimorar e o tempo que deve demorar aqui depende de sua necessidade. Os Espíritos bons, geralmente necessitam mesmo de menos tempo.

- Uma criança, quando desencarna, seu Espírito terá a mesma idade que ela tinha, quando era encarnada?

Sim, dependendo, no entanto, de sua maturidade espiritual. O Espírito, quando desencarna, permanece com os mesmos condicionamentos mentais que tinha na Terra, até que se conscientize de sua real situação. Permanecerá em estado de criança ou de adolescente, por um determinado tempo, dependendo de sua evolução, ou seja, de seu grau de entendimento, até que adquira plena consciência de sua condição e de suas necessidades. Isso, geralmente acontece com Espíritos que ainda estão em situação de pouca evolução espiritual. Por isso, nas colônias socorristas próximas à crosta terrestre, encontram-se Espíritos em condição de crianças e adolescentes. Deve-se saber, entretanto, que esta situação perdura apenas por um determinado período.

- Quando uma pessoa morre de morte acidental, por exemplo por afogamento, e ainda é muito jovem (18 anos) como fica o seu Espírito?

Todas as pessoas, ao desencarnarem, passam por um período mais ou menos longo de perturbação espiritual, podendo durar de algumas horas a anos, dependendo de seu grau evolutivo. Quando o Espírito é muito jovem, e certamente experimenta uma vida de muita atividade, pode permanecer sem entender sua situação por um tempo, como pode ser logo socorrido pelos Espíritos amigos que trabalham nessa área. Isso vai depender do seu merecimento. Se permanecer revoltado por ter retornado cedo, criará para si um ambiente vibratório ruim, que o levará a experimentar grandes dores morais nas zonas de sofrimento.

- O que acontece ao nosso anjo da guarda quando desencarnamos?O anjo de guarda é um Espírito protetor de uma ordem elevada que Deus, por sua imensa bondade, coloca ao nosso lado, para nos proteger, nos aconselhar e nos sustentar nas lutas da vida. Cumprem uma missão que pode ser prazerosa para uns e penosa para outros, quando seus protegidos não ouvem seus conselhos. Quando desencarnamos, ele também nos ampara e freqüentemente o reconhecemos, pois, na verdade, o conhecemos antes de mergulhar na carne. Claro que tudo depende da condição evolutiva da pessoa em questão. O anjo da guarda poderá também nos guiar em outras experiências, por muitos e muitos tempos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A FILOSOFIA, NEUROCIÊNCIA E O ESPIRITISMO EXPLICAM

Mênades Exaustas após a Dança (1874), pintura inacabada de Lawrence Alma-Tadema.

Mênades, tíades, bassárias ou bacantes, segundo a antiga cultura greco-romana, eram mulheres seguidoras e adoradoras do culto de Dionisio ou Baco; conhecidas por serem selvagens e endoidecidas quando em transe. Durante o culto, dançavam de uma maneira muito livre e lasciva, em total concordância com as forças mais primitivas da natureza. Os mistérios (fenômenos mediúnicos) que envolviam o nome do deus provocavam nelas um estado de êxtase absoluto, entregando-se a desmedida violência, sacrifício de animais e pessoas, sexo, embriaguez e autoflagelação. Reza a lenda que Penteu, rei de Tebas, ao tentar impedir as solenidades dos bacanais, foi confundido com um javali e despedaçado pelas bacantes; entre elas estavam a própria mãe do rei. 


A felicidade do pobre parece
a grande ilusão do carnaval:
a gente trabalha o ano inteiro
por um momento de sonho,
pra fazer a fantasia,
de rei ou de pirata ou jardineira,
e tudo se acabar na quarta-feira.

(Trecho de A Felicidade, 1959, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim)


Uma nota Introdutória

[...]

O que difere entre nós na busca pela felicidade é onde a procuramos. Nenhuma busca é errada; é apenas associada ao grau de consciência espiritual de cada um.

A maioria considera que a felicidade está na plena realização dos desejos pessoais. Para estes, ser feliz está definitivamente vinculado à solução positiva dos problemas de saúde, de relacionamento, de família, profissional, financeiro etc.

Mas será esta a Verdadeira Felicidade?

É claro que nos esforçarmos para atingir nossas metas é importante! O erro está em associarmos as nossa felicidade ao sucesso, e a nossa infelicidade ao fracasso destes empreendimentos. Se assim for, nosso estado de espírito será tão instável quanto a alternância do bom e mal tempo. Se construirmos algo tão precioso como a nossa felicidade sobre alicerces tão instáveis como esses, assumiremos interiormente esta mesma natureza de instabilidade. Ora estaremos felizes, ora infelizes; e mais tarde, felizes de novo; e então, infelizes novamente. É isso que queremos?

[...] associarmos a nossa felicidade à realização de nossos planos pessoais nada mais é que um vínculo inadequado com o nosso próprio ego. Fazemos isso por ignorância, e nela permaneceremos até quando quisermos. Ninguém é capaz de nos tirar deste aprisionamento a não ser nós mesmos. Podemos até ter ajuda, mas a decisão, o sentimento e a ação neste sentido são exclusivamente pessoais.

O "mundo" do ego é tentador, porque, afinal de contas, quem não quer desfrutar do prazer de ter as suas metas realizadas? Mas [...] a Verdadeira Felicidade é aquela que é Eterna, ou seja, a que permanece plena tanto no sucesso como no fracasso de nossos planos egocêntricos. A Felicidade Eterna não se baseia no que é temporário, mas no que é Eterno.

(Trecho do artigo de Marcelo Patury, palestrante de estudos sobre o Bhagavad-Gita, no jornal Por do Sol, out. 2011, p. 16, com modificações)


Festim Outonal da Vindima (1877), de Lawrence Alma-Tadema.


Felicidade foi-se embora
e a saudade do meu peito inda mora,
e é por isso que eu gosto lá de fora,
porque eu sei que a falsidade não vigora.

(trecho de Felicidade, 1952, de Lupicínio Rodrigues)

O Carnaval é fonte de felicidade? A resposta correta seria: depende da perspectiva. Existem duas perspectivas filosóficas sobre a felicidade humana: a perspectiva hedônica e a eudaimônica (Ryan et al., 2008). Na primeira, baseada na palavra grega hēdonē, que significa prazer, e defendida pelo fundador do hedonismo, Aristipo (435-356 a.C.) (Watson, 1895), toda a felicidade provém do prazer dos sentidos físicos e do evitamento da dor. Assim, para alguém ser feliz, segundo esta perspectiva, deve procurar evitar todo tipo de dor e satisfazer-se nos prazeres físicos. Epicuro (341-270 a.C.) (Watson, 1895), também defensor do hedonismo, acrescenta a ideia do prazer como a tranquilidade da mente – Aponia – como a principal fonte de felicidade, refinando o conceito de hedonismo para um conceito mais espiritualizado. Ele afirma também que, do ponto de vista da moralidade, o bem é aquilo que nos faz bem e faz bem aos outros, e o mal é aquilo que nos faz mal e faz mal aos outros e que, para sermos felizes, precisamos discernir três tipos de desejos: (1) os desejos naturais e necessários (alimento, abrigo), (2) os desejos naturais e desnecessários (alimentos caros, orgias, sexo, álcool) e (3) desejos não naturais e desnecessários (status, prestígio e poder). Assim, Epicuro afirma que o primeiro tipo de desejo nos proporciona felicidade, enquanto que o segundo e o terceiro nos insere num ciclo interminável de felicidade a curto prazo e de infelicidade a longo prazo (Watson, 1895).

A Bacante ou Tocadora de Tamborim (1895), de Frederic Leighton.

Na outra perspectiva filosófica sobre a felicidade, defendida por Sócrates, Platão e Aristóteles, Eudaimonia, que significa Eu (bom) + Daimón (espírito guardião), assenta toda a felicidade na aquisição das virtudes, e que a felicidade é ter espíritos bons (ou anjos, segundo alguns cristãos) conosco, como resultado das virtudes que adquirimos em nós (Plato, 370 a.C./2005). Para Platão, as virtudes são os ingredientes fundamentais para a felicidade e incluem também a supressão dos desejos e a virtude da justiça (Plato, 370 a.C./2005). Para Aristóteles, a felicidade advém do exercício das virtudes, e constitui o ingrediente mais importante de Eudaimoniaembora ele também não despreze a importância dos bens materiais, da saúde e da beleza.

Ninfas e Sátiro (1873), de William-Adolphe Bouguereau.


O Espiritismo partilha a filosofia eudaimônica, porque mais não é que o aprofundamento da filosofia socrática e platônica e do cristianismo primitivo, dentro de uma linguagem moderna e de uma perspectiva filosófica, científica e religiosa (ver O Livro dos Espíritos, questões 100, 115, 313, 394, 440, 707, 777, 785, 789, 897, 920, 921, 922, 924, 926, 927, 931, 962, 967, 968, 976a, 979, 982, 983, Conclusão do L.E, para um estudo mais aprofundado sobre a felicidade na perspectiva espírita).


Bacante (1894), de William-Adolphe Bouguereau.

Na neurociência e na psicologia moderna, os estudos têm incidido muito mais sobre a psicologia hedônica (Kahneman, Diener e Schwarz, 1999) e sobre a neurociência do prazer (ver Schultz, 2009). Por exemplo, na psicologia hedônica, o Prêmio Nobel de Economia, Daniel Kahneman, que é psicólogo, tem estudado o chamado “bem-estar” subjetivo como a maior fonte de felicidade. Na neurociência, Schultz definiu o sistema de recompensa, conhecido popularmente como região cerebral do prazer, como a área tegmental-ventral da região medial do cérebro. Esta região reage positivamente a estímulos de prazer, como chocolate, sexo, ou qualquer outro estímulo sensorial gerador de prazer físico. Estes estudos têm conduzido a concepções neurocientíficas do hedonismo (Kringelbach e Berridge, 2009) e aplicados em uma nova área de bases neurocientíficas da psicologia hedônica, em que as emoções positivas, o bem-estar e a felicidade são o resultado do prazer sensorial.

Baco (c.1595), de Caravaggio.

No entanto, existem também duas grandes correntes (uma da Psicologia Experimental e outra da Neurociência) que enfatizam a importância das virtudes para a felicidade, ou seja, partilham uma perspectiva eudaimônica.

Baco Jovem e Enfermo (c.1593), de Caravaggio.

Dentro da Psicologia Positiva, foi demonstrado experimentalmente que as pessoas que sentem gratidão são mais felizes (Emmons e McCullough, 2003). Foi criada uma teoria da felicidade sustentada (Lyubomirsky, Sheldon, e Schkade, 2005), que demonstra que a felicidade se constitui nas atividades intencionais diárias construtivas e não nas circunstâncias da vida (Sheldon e Lyubomirsky, 2006) nem na posse dos bens materiais (Van Boven, 2005); em ajudar os outros (Lyubomirsky, Sheldon, e Schkade, 2005), e um conjunto de virtudes a serem desenvolvidas pelos seres humanos (Peterson and Seligman, 2004).

Baco Bebedor (c.1623), de Guido Reni.

Quanto à neurociência, o Dr. Jorge Moll Neto demonstrou que um ato de altruísmo (sacrifício em prol de uma causa moral) ativa o sistema de prazer, ou seja, a área tegmental-ventral da região medial do cérebro (Moll et al., 2006), conectado com o córtex frontopolar, região moralmente nobre do cérebro.

Dois Sátiros (1618-19), de Peter Paul Rubens.

Esta é a primeira prova científica de que um ato moral nobre (ou ético) gera prazer sensorial! Isto significa que o cérebro nos recompensa biologicamente por uma ação moral positiva, mesmo quando ela implica em sacrifício para nós! Para além disso, podemos afirmar, com bases científicas que, quando estamos encarnados na Terra, o prazer espiritual de uma virtude está conectado a um prazer sensorial, demonstrando aos religiosos castradores do passado que não é pecado sentir prazer! A grande questão é que o prazer sensorial ligado às virtudes torna-se propriedade intemporal do indivíduo (ver A Verdadeira Propriedade, Cap. XVI, Não se pode servir a Deus e a Mamon, item 8, de O Evangelho segundo o Espiritismo – Kardec, 1866/1944) enquanto que o prazer pelo prazer produz uma felicidade temporária, mais comumente durante o Carnaval, quando há um prazer intenso e, logo após, uma enorme ressaca de Carnaval, quando o sexo, o álcool e os batuques produzem, no dia seguinte de trabalho, a “depressão” de ter que enfrentar a realidade, sem ter construído nada de positivo e duradouro para o ser, durante a vivência do Carnaval.

Mulheres de Amfisa (1887), de Lawrence Alma-Tadema.
Dentro do conhecimento histórico que temos das mênades da Grécia Antiga, existiam os tiasoi (cortejos ao culto de Dioniso). As mulheres conhecidas como tíades juntavam-se anualmente, viajando de Atenas para se juntarem às demais em Delfos, a fim de celebrarem os ritos dionisíacos, nas encostas do monte Parnaso. Estas executavam danças em pontos fixos ao longo do percurso. Plutarco (Moralia, 249) narra um episódio do século IV, no qual um grupo de tíades de Delfos, ainda em êxtase dos seus festins, vaguearam até ao mercado de Amfisa e adormeceram. As mulheres dessa cidade, temendo que os soldados as molestassem, formaram um círculo em volta delas, mantendo uma vigília durante toda noite (Joan Breton Connely: 2007, p. 42).


Isto significa que a prática das virtudes é também uma questão de inteligência e capacidade de visão para a construção de uma felicidade sólida para cada um de nós. Respondendo então à questão inicial, a verdade é que o Carnaval proporciona uma intensa felicidade hedônica nos seus três dias de duração, mas (esses dias) se perdem nas linhas do tempo, por não ter cultivado nenhuma felicidade na perspectiva eudaimônica.

Detalhe de Mênades... de Alma-Tadema.


Marcha da Quarta-Feira de Cinzas 
(Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1963)

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar e que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz

Para ouvir (na voz de Dalva de Oliveira):

Referências:

ARISTOTLE (1998). The nicomachean ethics. Trans. D. Ross. New York: Oxford Univ. Press.

EMMONS, R.A. & MCCULLOUGH, M.E. (2003). Counting blessings versus burdens: An experimental investigation of gratitude and subjective well-being in dally life. Journal of Personality and Social Psychology, 84(2), 377-389.

KAHNEMAN, D.E; DIENER, E. & SCHWARZ, N. (1999). Well-being: the foundations of hedonic psychology. New York: Russell Sage Foundation.

KARDEC, A. (1860/1944). O Livro dos EspíritosRio de Janeiro: FEB.
KARDEC, A. (1860/1944). O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB.
KRINGELBACH, M.L. & BERRIDGE, K.C. (2009). Toward a functional neuroanatomy of pleasure and happiness. Trends in Cognitive Sciences, 13(11), 479-487.

LYUBOMIRSKY, S.; SHELDON, K.M. & SCHKADE, D. (2005). Pursuing happiness: The architecture of sustainable change. Review of General Psychology, 9(2), 111-131.

PETERSON, C. & SELIGMAN, M.E.P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press/Washington, DC: American Psychological Association.

PLATO (2005). Phaedrus. London: Penguim Classics.

RYAN, R.M.; HUTA, V. & DECI, E.L. (2008). Living well: A self-determination theory perspective on eudaimonia. Journal of Happiness Studies, 9, 139-170.

SCHULTZ, W. (2009). Midbrain dopamine neurons: a retina of the reward system? In P.W. Glimcher, C.F. Camerer, E. Fehr and R.A. Poldrack (Eds.), Neuroeconomics, decision making and the brain, pp. 323-329.

SHELDON, K.M. & LYUBOMIRSKY, S. (2006). Achieving sustainable gains in happiness: Change your actions, not your circumstances. Journal of Happiness Studies, 7, 55-86.

VAN BOVEN, L. (2005). Experientialism, materialism, and the pursuit of happiness. Review of General Psychology, 9, 132-142.

WATSON, J. (1895). Hedonistic theories from Aristippus to SpencerLondon: Bibliolife, LLC.

Artigo de João Ascenso (psicólogo social, neurocientista e expositor espírita) em Revista Cultural Espírita, Rio de Janeiro: ICEB, março de 2011, pp. 12-13 (com modificações).
 
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