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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Carnaval e Espíritos


O Carnaval é uma festa religiosa, é o misto dos dias sagrados de Afrodita e Dionísios, vem coroado de pâmpanos [ramos de videira] e cheirando a luxúria. As mulheres entregam-se; os homens abrem-se; os

instrumentos rugem; estes três dias ardentes, coruscantes são como uma enorme sangria na congestão dos maus instintos.

[RIO, João do. Cordões. In: A alma encantadora das ruas: crônicas. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 127, com adição]

O Folião Redimido

A cidade, regorgitante, era um pandemônio. (...)

Trabalhadores do nosso plano diligenciavam atendimentos a pessoas encarnadas (...); urgências para recém-desencarnados em pugnas decorrentes da ingestão de bebidas alcoólicas, de desvarios sexuais, das interferências subjugadoras de seres obsidentes...

(...) (...) Subitamente fui colhido por uma surpresa, que me tomou de emoção feliz.

Vislumbrei um diligente cooperador que me fazia recordar célebre poeta e compositor, cujas músicas populares foram-me familiares quando na Terra.

Circunspecto, atendia, gentil, no seu labor, sem alarde, nem afetação, ao trabalho que lhe fora confiado.

Acerquei-me e indaguei-lhe o nome, confirmando a suspeita quanto à sua personalidade.

Sem qualquer indelicadeza inquiri, para minha própria aprendizagem, como conciliava a sua atitude de ex-sambista, vinculando às ações do Carnaval, com a atual, longe do bulício festivo em trabalhos de socorro ao próximo? O amigo assumiu uma posição meditativa e, sem ressentimento, respondeu:

- Enquanto, na Terra, (...) Sem resistências morais, resvalei, não poucas vezes, carpindo, na soledade e na fuga pelos alcoólicos e drogas outras, o tormento que me não deixava.

Amei muito, certamente que um amor desconcertante, aturdido, que passeava pelos bares de má fama e cabarets, sorvendo toda taça de aflições (...).

A desencarnação colheu-me a vida física ainda jovem.

Despertei sob maior soma de amarguras, com fortes vinculações aos ambientes sórdidos, pelos quais transitara em largas aflições.

(...) As muitas composições pessoais e aquelas em parceria, no entanto, inspiravam e despertavam ternura, retratando situações e acontecimentos do coração, que provocam emoções positivas...

(...) a minha memória gerou simpatias e a mensagem das músicas provocou amizades, graças a cujo recurso fui alcançado pela Misericórdia Divina, que me recambiou para outros sítios de tratamento e renovação, onde despertei para realidades novas.

Passei a compreender as finalidades superiores da vida, que eu malbaratara, descobrindo, porém, que é sempre tempo de recomeçar e de agir, iniciando, desde então, a composição de outros sambas ao compasso de bem, com as melodias da esperança e os ritmos da paz, numa Vila de amor infinito...

O Carnaval, para mim, é passado de dor e a caridade, hoje, é-me festa de todo dia, qual primavera que surge após inverno demorado, sombrio.

Calou-se e sorriu algo triste, para logo concluir:

- Apesar da noite vitoriosa, o dia de luz sempre triunfa e o bem soberano tudo conquista...

Abracei-o, reconhecido, e fui-me adiante a meditar nos apontamentos vivos que acabara de recolher.

(Trecho de FRANCO, Divaldo Pereira; pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Nas Fronteiras da Loucura, Salvador: LEAL, 1982, cap. 6, pp 51 a 56. Obs.: O título desse trecho foi adicionado aqui).

Nossa hipótese diz que o “Espírito Folião Redimido” é Noel Rosa (1910-1937), desencarnado aos 26 anos de tuberculose. A palavra Vila, que aparece no texto, possivelmente é uma analogia ao bairro carioca de Vila Isabel, berço de Noel e bastante citado em suas composições.

O Espírito Noel Rosa deixou canções, através de médiuns, que exaltam, dentre outras coisas, Deus e a cidade do Rio de Janeiro.

O samba não é pecado, se nasce do coração

Jesus nasceu festejado, no meio de uma canção

Um Rio belo e risonho, canto ainda a serenata

em tuas noites de sonho, em tuas noites de prata.

(Espírito Noel Rosa através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, jan. 1963).


A Triste História de um Carnaval que não teve Fim
 (...) Há criaturas que possuem o dom de convencer.

Peixoto de tal parecia ser uma delas. Com a simples fantasia de “pirata”, fazia mais sucesso que os arlequins e as rainhas-de-sabá. Certamente não era a mais rica, nem a mais original. Era mesmo o dono, quem “valorizava” a veste: chegou, brincou e convenceu. Convenceu mesmo.

Um olho tapado, à guisa de Almirante Nelson, espada em punho, saltava, duelava, suava, cantava e... convencia!

À saída do baile os comentários foram unânimes:
- “O Peixoto é o maior, hein?”

Na noite seguinte ele não apareceu.

A turma o esperava, certa de que todos teriam a repetição do entretenimento; decepcionaram-se com a ausência.

- “Amanhã será o último dia, Peixoto tem que vir!”

Combinaram e foram à casa dele.

Sentia-se indisposto e, por isso, não fora. E continuava sem vontade de ir. Não era doença não, era mesmo uma vontade esquisita de não ir.

A “boa turma” tanto fez que Peixoto cedeu.
Afinal... se era indispensável... Animou-se e foi.

Antes houvesse atendido àquela voz estranha
que o aconselhava no recôndito da consciência:

- “Não vá, Peixoto, não vá!”

Ele mesmo nem ficou sabendo disso.

Na última noite momesca, Peixoto estava exuberante,  habilidoso, perfeito, inexcedível!

O baile caminhava para marcar o fim do carnaval.
“Aproveita que é hoje só!”

Poucos pares se aguentavam de pé, mas o pirata Peixoto estava firme no seu papel, sempre admirado, sempre lisonjeado. Enfim, a marcha final!
Acabou-se o baile! Cessaram todos de pular. Todos. Todos, disse eu?

Quase todos, porque o pirata Peixoto continuava
a representação.

Acharam graça. No princípio. Meia hora depois, prosseguindo o seu próprio carnaval, os que restavam do grupo começaram a estranhar. Levaram Peixoto para casa. Esgrimindo sempre; sempre perfeito, sempre inexcedível.

No dia seguinte, tiveram a notícia. Ele dormira, mas, mal acordado, na quarta-feira de cinzas, retomara imediatamente a espada de madeira, recomeçando a batalha.

Tornara-se o pirata Peixoto presa de autêntica subjugação.
A medicina o classificou como louco.

Para ele o carnaval só teve fim, quando desencarnou. Isto, aos olhos dos mortais, porque “do outro lado”, continuou, por muito tempo ainda, a batalha invencível, o baile infernal!

(Trecho de BASTOS, Demétrio Pável. A Voz do Coração. Juiz de Fora-MG:
Instituto Maria Departamento Editorial, 1986, pp. 111 a 114)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O CARNAVAL NA VISÃO ESPÍRITA

O CARNAVAL NA VISÃO ESPÍRITA

O Carnaval, conforme os conceitos de Bezerra de Menezes é festa que ainda guarda vestígios da barbárie e do primitivismo que ainda reina entre os encarnados, marcado pelas paixões do prazer violento. Como nosso imperativo maior é a Lei de Evolução, um dia tudo isso, todas essas manifestações ruidosas que marcam nosso estágio de inferioridade desaparecerão da Terra. Em seu lugar, então, predominarão a alegria pura, a jovialidade, a satisfação, o júbilo real, com o homem despertando para a beleza e a arte, sem agressão nem promiscuidade. A folia em que pontifica o Rei Momo já foi um dia a comemoração dos povos guerreiros, festejando vitórias; foi reverência coletiva ao deus Dionísio, na Grécia clássica, quando a festa se chamava bacanalia; na velha Roma dos césares, fortemente marcada pelo aspecto pagão, chamou-se saturnalia e nessas ocasiões se imolava uma vítima humana.

Na Idade Média, entretanto, é que a festividade adquiriu o conceito que hoje apresenta, o de uma vez por ano é lícito enlouquecer, em homenagem aos falsos deuses do vinho, das orgias, dos desvarios e dos excessos, em suma.

A letra da música de Caetano Veloso diz: “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, mas para os espíritas a letra deveria ser modificada para: “atrás do trio elétrico também vai quem já morreu”, porque o Espiritismo nos esclarece que estamos o tempo todo em companhia de uma inumerável legião de seres invisíveis, recebendo deles boas e más influências a depender da faixa de sintonia em que nos encontremos. Essa massa de espíritos cresce sobremaneira nos dias de realização de festas pagãs, como é o Carnaval. Nessas ocasiões, como grande parte das pessoas se dá aos exageros de toda sorte, as influências nefastas se intensificam e muitos dos encarnados se deixam dominar por espíritos maléficos, ocasionando os tristes casos de violência criminosa, como os homicídios e suicídios, drogas lícitas e ilícitas, além dos desvarios sexuais que levam à paternidade e maternidade irresponsáveis, doenças sexualmente transmissíveis, abortos, etc.

Isso acontece tanto com aqueles que se afinizam com os seres perturbadores, adotando comportamento vicioso, quanto com criaturas cujas atitudes as identificam como pessoas respeitáveis, embora sujeitas às tentações que os prazeres mundanos representam, por também acreditarem que seja lícito enlouquecer uma vez por ano.

Mas, do mesmo modo como somos facilmente dominados pelos maus espíritos, quando sintonizamos na mesma frequência de pensamento, também obtemos pelo mesmo processo, a ajuda dos bons, aqueles que agem a nosso favor em nome de Jesus. Basta, para tanto, estarmos predispostos a suas orientações, atentos ao aviso de “orar e vigiar” que o Cristo nos deu há dois mil anos, através do cultivo de atitudes salutares, como a prece e a praticada caridade desinteressada.

Como disse Carlos Baccelli: “Advertiu-nos o apóstolo Paulo: "Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém". O mal não está tanto na coisa em si; está em como nos conduzimos dentro dela. O carnaval não seria o que é, se não fôssemos o que somos. É natural a presença do jovem espírita em festas e boates; no entanto, ao adentrar uma casa de diversão, ele não pode deixar lá fora a sua condição religiosa, como se tal condição lhe fosse uma capa da qual ele pudesse despir-se à vontade.”

Há quem se isole em grupos religiosos para orar ou pular um carnaval mais cristianizado, onde a alegria não precisa de drogas, sexo desregrado, atitudes desequilibradas.

Então, podemos concluir que, seria bom evitarmos, mas se não for possível, podemos nos divertir, mas nos comportemos como cristãos seja lá onde estivermos. ORAÇÃO e VIGILÂNCIA é a recomendação sempre atual.

(Compilação de Rudymara retirado do texto da Revista Espírita e do livro Mediunidade na Mocidade de Carlos A. Baccelli)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A FILOSOFIA, NEUROCIÊNCIA E O ESPIRITISMO EXPLICAM

Mênades Exaustas após a Dança (1874), pintura inacabada de Lawrence Alma-Tadema.

Mênades, tíades, bassárias ou bacantes, segundo a antiga cultura greco-romana, eram mulheres seguidoras e adoradoras do culto de Dionisio ou Baco; conhecidas por serem selvagens e endoidecidas quando em transe. Durante o culto, dançavam de uma maneira muito livre e lasciva, em total concordância com as forças mais primitivas da natureza. Os mistérios (fenômenos mediúnicos) que envolviam o nome do deus provocavam nelas um estado de êxtase absoluto, entregando-se a desmedida violência, sacrifício de animais e pessoas, sexo, embriaguez e autoflagelação. Reza a lenda que Penteu, rei de Tebas, ao tentar impedir as solenidades dos bacanais, foi confundido com um javali e despedaçado pelas bacantes; entre elas estavam a própria mãe do rei. 


A felicidade do pobre parece
a grande ilusão do carnaval:
a gente trabalha o ano inteiro
por um momento de sonho,
pra fazer a fantasia,
de rei ou de pirata ou jardineira,
e tudo se acabar na quarta-feira.

(Trecho de A Felicidade, 1959, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim)


Uma nota Introdutória

[...]

O que difere entre nós na busca pela felicidade é onde a procuramos. Nenhuma busca é errada; é apenas associada ao grau de consciência espiritual de cada um.

A maioria considera que a felicidade está na plena realização dos desejos pessoais. Para estes, ser feliz está definitivamente vinculado à solução positiva dos problemas de saúde, de relacionamento, de família, profissional, financeiro etc.

Mas será esta a Verdadeira Felicidade?

É claro que nos esforçarmos para atingir nossas metas é importante! O erro está em associarmos as nossa felicidade ao sucesso, e a nossa infelicidade ao fracasso destes empreendimentos. Se assim for, nosso estado de espírito será tão instável quanto a alternância do bom e mal tempo. Se construirmos algo tão precioso como a nossa felicidade sobre alicerces tão instáveis como esses, assumiremos interiormente esta mesma natureza de instabilidade. Ora estaremos felizes, ora infelizes; e mais tarde, felizes de novo; e então, infelizes novamente. É isso que queremos?

[...] associarmos a nossa felicidade à realização de nossos planos pessoais nada mais é que um vínculo inadequado com o nosso próprio ego. Fazemos isso por ignorância, e nela permaneceremos até quando quisermos. Ninguém é capaz de nos tirar deste aprisionamento a não ser nós mesmos. Podemos até ter ajuda, mas a decisão, o sentimento e a ação neste sentido são exclusivamente pessoais.

O "mundo" do ego é tentador, porque, afinal de contas, quem não quer desfrutar do prazer de ter as suas metas realizadas? Mas [...] a Verdadeira Felicidade é aquela que é Eterna, ou seja, a que permanece plena tanto no sucesso como no fracasso de nossos planos egocêntricos. A Felicidade Eterna não se baseia no que é temporário, mas no que é Eterno.

(Trecho do artigo de Marcelo Patury, palestrante de estudos sobre o Bhagavad-Gita, no jornal Por do Sol, out. 2011, p. 16, com modificações)


Festim Outonal da Vindima (1877), de Lawrence Alma-Tadema.


Felicidade foi-se embora
e a saudade do meu peito inda mora,
e é por isso que eu gosto lá de fora,
porque eu sei que a falsidade não vigora.

(trecho de Felicidade, 1952, de Lupicínio Rodrigues)

O Carnaval é fonte de felicidade? A resposta correta seria: depende da perspectiva. Existem duas perspectivas filosóficas sobre a felicidade humana: a perspectiva hedônica e a eudaimônica (Ryan et al., 2008). Na primeira, baseada na palavra grega hēdonē, que significa prazer, e defendida pelo fundador do hedonismo, Aristipo (435-356 a.C.) (Watson, 1895), toda a felicidade provém do prazer dos sentidos físicos e do evitamento da dor. Assim, para alguém ser feliz, segundo esta perspectiva, deve procurar evitar todo tipo de dor e satisfazer-se nos prazeres físicos. Epicuro (341-270 a.C.) (Watson, 1895), também defensor do hedonismo, acrescenta a ideia do prazer como a tranquilidade da mente – Aponia – como a principal fonte de felicidade, refinando o conceito de hedonismo para um conceito mais espiritualizado. Ele afirma também que, do ponto de vista da moralidade, o bem é aquilo que nos faz bem e faz bem aos outros, e o mal é aquilo que nos faz mal e faz mal aos outros e que, para sermos felizes, precisamos discernir três tipos de desejos: (1) os desejos naturais e necessários (alimento, abrigo), (2) os desejos naturais e desnecessários (alimentos caros, orgias, sexo, álcool) e (3) desejos não naturais e desnecessários (status, prestígio e poder). Assim, Epicuro afirma que o primeiro tipo de desejo nos proporciona felicidade, enquanto que o segundo e o terceiro nos insere num ciclo interminável de felicidade a curto prazo e de infelicidade a longo prazo (Watson, 1895).

A Bacante ou Tocadora de Tamborim (1895), de Frederic Leighton.

Na outra perspectiva filosófica sobre a felicidade, defendida por Sócrates, Platão e Aristóteles, Eudaimonia, que significa Eu (bom) + Daimón (espírito guardião), assenta toda a felicidade na aquisição das virtudes, e que a felicidade é ter espíritos bons (ou anjos, segundo alguns cristãos) conosco, como resultado das virtudes que adquirimos em nós (Plato, 370 a.C./2005). Para Platão, as virtudes são os ingredientes fundamentais para a felicidade e incluem também a supressão dos desejos e a virtude da justiça (Plato, 370 a.C./2005). Para Aristóteles, a felicidade advém do exercício das virtudes, e constitui o ingrediente mais importante de Eudaimonia, embora ele também não despreze a importância dos bens materiais, da saúde e da beleza.

Ninfas e Sátiro (1873), de William-Adolphe Bouguereau.


O Espiritismo partilha a filosofia eudaimônica, porque mais não é que o aprofundamento da filosofia socrática e platônica e do cristianismo primitivo, dentro de uma linguagem moderna e de uma perspectiva filosófica, científica e religiosa (ver O Livro dos Espíritos, questões 100, 115, 313, 394, 440, 707, 777, 785, 789, 897, 920, 921, 922, 924, 926, 927, 931, 962, 967, 968, 976a, 979, 982, 983, Conclusão do L.E, para um estudo mais aprofundado sobre a felicidade na perspectiva espírita).


Bacante (1894), de William-Adolphe Bouguereau.

Na neurociência e na psicologia moderna, os estudos têm incidido muito mais sobre a psicologia hedônica (Kahneman, Diener e Schwarz, 1999) e sobre a neurociência do prazer (ver Schultz, 2009). Por exemplo, na psicologia hedônica, o Prêmio Nobel de Economia, Daniel Kahneman, que é psicólogo, tem estudado o chamado “bem-estar” subjetivo como a maior fonte de felicidade. Na neurociência, Schultz definiu o sistema de recompensa, conhecido popularmente como região cerebral do prazer, como a área tegmental-ventral da região medial do cérebro. Esta região reage positivamente a estímulos de prazer, como chocolate, sexo, ou qualquer outro estímulo sensorial gerador de prazer físico. Estes estudos têm conduzido a concepções neurocientíficas do hedonismo (Kringelbach e Berridge, 2009) e aplicados em uma nova área de bases neurocientíficas da psicologia hedônica, em que as emoções positivas, o bem-estar e a felicidade são o resultado do prazer sensorial.

Baco (c.1595), de Caravaggio.

No entanto, existem também duas grandes correntes (uma da Psicologia Experimental e outra da Neurociência) que enfatizam a importância das virtudes para a felicidade, ou seja, partilham uma perspectiva eudaimônica.

Baco Jovem e Enfermo (c.1593), de Caravaggio.

Dentro da Psicologia Positiva, foi demonstrado experimentalmente que as pessoas que sentem gratidão são mais felizes (Emmons e McCullough, 2003). Foi criada uma teoria da felicidade sustentada (Lyubomirsky, Sheldon, e Schkade, 2005), que demonstra que a felicidade se constitui nas atividades intencionais diárias construtivas e não nas circunstâncias da vida (Sheldon e Lyubomirsky, 2006) nem na posse dos bens materiais (Van Boven, 2005); em ajudar os outros (Lyubomirsky, Sheldon, e Schkade, 2005), e um conjunto de virtudes a serem desenvolvidas pelos seres humanos (Peterson and Seligman, 2004).

Baco Bebedor (c.1623), de Guido Reni.

Quanto à neurociência, o Dr. Jorge Moll Neto demonstrou que um ato de altruísmo (sacrifício em prol de uma causa moral) ativa o sistema de prazer, ou seja, a área tegmental-ventral da região medial do cérebro (Moll et al., 2006), conectado com o córtex frontopolar, região moralmente nobre do cérebro.

Dois Sátiros (1618-19), de Peter Paul Rubens.

Esta é a primeira prova científica de que um ato moral nobre (ou ético) gera prazer sensorial! Isto significa que o cérebro nos recompensa biologicamente por uma ação moral positiva, mesmo quando ela implica em sacrifício para nós! Para além disso, podemos afirmar, com bases científicas que, quando estamos encarnados na Terra, o prazer espiritual de uma virtude está conectado a um prazer sensorial, demonstrando aos religiosos castradores do passado que não é pecado sentir prazer! A grande questão é que o prazer sensorial ligado às virtudes torna-se propriedade intemporal do indivíduo (ver A Verdadeira Propriedade, Cap. XVI, Não se pode servir a Deus e a Mamon, item 8, de O Evangelho segundo o Espiritismo – Kardec, 1866/1944) enquanto que o prazer pelo prazer produz uma felicidade temporária, mais comumente durante o Carnaval, quando há um prazer intenso e, logo após, uma enorme ressaca de Carnaval, quando o sexo, o álcool e os batuques produzem, no dia seguinte de trabalho, a “depressão” de ter que enfrentar a realidade, sem ter construído nada de positivo e duradouro para o ser, durante a vivência do Carnaval.

Mulheres de Amfisa (1887), de Lawrence Alma-Tadema.
Dentro do conhecimento histórico que temos das mênades da Grécia Antiga, existiam os tiasoi (cortejos ao culto de Dioniso). As mulheres conhecidas como tíades juntavam-se anualmente, viajando de Atenas para se juntarem às demais em Delfos, a fim de celebrarem os ritos dionisíacos, nas encostas do monte Parnaso. Estas executavam danças em pontos fixos ao longo do percurso. Plutarco (Moralia, 249) narra um episódio do século IV, no qual um grupo de tíades de Delfos, ainda em êxtase dos seus festins, vaguearam até ao mercado de Amfisa e adormeceram. As mulheres dessa cidade, temendo que os soldados as molestassem, formaram um círculo em volta delas, mantendo uma vigília durante toda noite (Joan Breton Connely: 2007, p. 42).


Isto significa que a prática das virtudes é também uma questão de inteligência e capacidade de visão para a construção de uma felicidade sólida para cada um de nós. Respondendo então à questão inicial, a verdade é que o Carnaval proporciona uma intensa felicidade hedônica nos seus três dias de duração, mas (esses dias) se perdem nas linhas do tempo, por não ter cultivado nenhuma felicidade na perspectiva eudaimônica.

Detalhe de Mênades... de Alma-Tadema.


Marcha da Quarta-Feira de Cinzas 
(Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1963)

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar e que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz

Para ouvir (na voz de Dalva de Oliveira):

Referências:

ARISTOTLE (1998). The nicomachean ethics. Trans. D. Ross. New York: Oxford Univ. Press.

EMMONS, R.A. & MCCULLOUGH, M.E. (2003). Counting blessings versus burdens: An experimental investigation of gratitude and subjective well-being in dally life. Journal of Personality and Social Psychology, 84(2), 377-389.

KAHNEMAN, D.E; DIENER, E. & SCHWARZ, N. (1999). Well-being: the foundations of hedonic psychology. New York: Russell Sage Foundation.

KARDEC, A. (1860/1944). O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB.
KARDEC, A. (1860/1944). O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB.
KRINGELBACH, M.L. & BERRIDGE, K.C. (2009). Toward a functional neuroanatomy of pleasure and happiness. Trends in Cognitive Sciences, 13(11), 479-487.

LYUBOMIRSKY, S.; SHELDON, K.M. & SCHKADE, D. (2005). Pursuing happiness: The architecture of sustainable change. Review of General Psychology, 9(2), 111-131.

PETERSON, C. & SELIGMAN, M.E.P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press/Washington, DC: American Psychological Association.

PLATO (2005). Phaedrus. London: Penguim Classics.

RYAN, R.M.; HUTA, V. & DECI, E.L. (2008). Living well: A self-determination theory perspective on eudaimonia. Journal of Happiness Studies, 9, 139-170.

SCHULTZ, W. (2009). Midbrain dopamine neurons: a retina of the reward system? In P.W. Glimcher, C.F. Camerer, E. Fehr and R.A. Poldrack (Eds.), Neuroeconomics, decision making and the brain, pp. 323-329.

SHELDON, K.M. & LYUBOMIRSKY, S. (2006). Achieving sustainable gains in happiness: Change your actions, not your circumstances. Journal of Happiness Studies, 7, 55-86.

VAN BOVEN, L. (2005). Experientialism, materialism, and the pursuit of happiness. Review of General Psychology, 9, 132-142.

WATSON, J. (1895). Hedonistic theories from Aristippus to Spencer. London: Bibliolife, LLC.

Artigo de João Ascenso (psicólogo social, neurocientista e expositor espírita) em Revista Cultural Espírita, Rio de Janeiro: ICEB, março de 2011, pp. 12-13 (com modificações).
 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A CIDADE ESTRANHA

A CIDADE ESTRANHA

Em um dos constantes desdobramentos astrais ocorridos com o nosso médium maior, durante o sono, Emmanuel conduziu o duplo-astral de Chico Xavier a uma imensa “cidade espiritual”, situada numa região do Umbral. Esta lhe pareceu extremamente inferior e bastante próxima da crosta planetária.

Era uma “Cidade Estranha” não só pelo seu aspecto desarmônico e antiestético, como pelas manifestações de luxúria, degradação de costumes e sensualidade dos seus habitantes, exibidas em todos os logradouros públicos, ruas, praças etc. Emmanuel informou a Chico que aquela vasta comunidade espiritual era governada por entidades mentalmente vigorosas, porém negativas em termos de ética e sentimentos humanos. Eram esses maiorais que davam as ordens e faziam-se obedecer, exercendo sobre aquelas entidades um poder do tipo da sugestão hipnótica, ao qual tais espíritos estariam submetidos, ainda mesmo depois de reencarnados.

Pelas ruas da referida cidade estranha, desfilavam, de maneira semelhante a cordões carnavalescos, multidões compostas de entidades que se esmeravam em exibições de natureza pornográfica, erótica e debochada.

Os maiorais eram conduzidos em andores ou tronos colocados sobre carros alegóricos, cujos formatos imitavam os órgãos sexuais masculinos e femininos.

Conclusão

É elementar, e poucos ignoram que a História da espécie humana apresenta-se pontilhada de períodos de grandes crises, seguidos de fases de prosperidade e reequilíbrio. É semelhante a uma sucessão de ciclos que se desenvolvem como uma espiral em constante ascensão. Há um lento progredir, apesar dos episódios negativos. Provavelmente os Planos Superiores da Espiritualidade velam pela humanidade, dosando sabiamente os "ingredientes" injetados na corrente da vida. A par dos espíritos rebeldes, reencarnam também aqueles que lutam pelo bem, pela Ciência e pelo aperfeiçoamento do homem. Não percamos a esperança.

(Hernani Guimarães Andrade, janeiro de 1990).

Trecho do Livro "Lições de Sabedoria" - Marlene Nobre - Item: " RETORNO DOS HABITANTES DA CIDADE ESTRANHA " - FE Editora Jornalística Ltda.
 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O CARNAVAL AOS OLHOS DE UM ESPÍRITO

Procissão de Carnaval (século XIX), pintura de Adrien Moreau.

Atrás do trio elétrico TAMBÉM vai quem já morreu!
(Paródia da canção Atrás do Trio Elétrico, de Caetano Veloso)
***
... Só a alma da turba consegue o prodígio de
ligar o sofrimento e o gozo na mesma lei de fatalidade, só o povo diverte-se não esquecendo as suas
chagas, só a populaça desta terra de sol encara sem pavor a morte nos sambas macabros do Carnaval.

[RIO, João do. Cordões. In: A alma encantadora das ruas: crônicas. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 133] 

(...) Estamos na semana de carnaval na terra.

As ondas vibratórias inferiores de desejo e sexualidade se expandem de tal forma, que temos de desenvolver um escudo energético de proteção, para que não sejam atingidos os hospitais e as Colônias próximas à crosta. (...).

Infelizmente, em nosso querido país, o Coração do Mundo e Pátria do Evangelho, tornou-se uma tradição nefasta. Pessoas do mundo inteiro são atraídas para cá, em busca de diversão e sexualidade.

É com tristeza que verificamos que a festa do carnaval, com o tempo, foi se tornando cada vez mais apelativa e contrária aos bons costumes.

(...) Acompanhe-me e poderá vislumbrar singular fenômeno vibratório que envolve a Terra neste período do ano.



(...) Alcançamos determinada altitude que nos permitia divisar a curvatura da Terra e os contornos do nosso país. (...) para minha surpresa, verifiquei que, em vez da tonalidade azulada que normalmente envolvia a Terra, apresentava-se naquele instante, uma coloração diferente. Nuanças de vermelho escuro irradiavam-se, envolvendo grande parte do continente, notadamente na região em que se localizava o território brasileiro.

(...) Em regiões de conflito e guerra, os sentimentos de ódio, dor, morte, angústia e sofrimento, provocam a expansão, para além da estratosfera, das vibrações em formas agressivas e pontiagudas, de coloração vermelho escarlate, que se fazem sentir nos planos próximos da crosta terrestre, na região em que se desenrola o conflito. 

O Brasil não vive nenhum conflito bélico, mas as vibrações emitidas pelas sensações inferiores do ser humano, em forma coletiva, encontram ressonâncias no plano do astral inferior, que tomam de assalto a crosta neste período. Como conseqüência, as vibrações das sensações materiais e inferiores dos sentidos humanos formam também uma nuvem espessa e densa, que envolve as regiões onde o carnaval vive a sua plenitude.

Desfile de Carnaval com Figuras Mascaradas (século XVII-XVIII), 
pintura de Pierre Bergaigne.

(...) Eu observava admirado as regiões em que a folia de carnaval se fazia mais intensa. Aqueles locais se revelavam, à nossa vista espiritual, envoltos em densa neblina escura e em vibração de baixo teor.

(...) Tentei concentrar-me, por breves instantes, em determinada cidade, que vivia naquela noite, o ponto máximo da explosão carnavalesca. Breves instantes, mas o suficiente para sentir uma atração forte e agressiva, qual poderoso ímã, despertando-me sensações da libido e desejos carnais incontroláveis, como um chamamento apelativo e irresistível. Senti-me momentaneamente, sufocado, mas com esforço, repeli de imediato aqueles chamamentos em forma de instintos primitivos, mudando meu campo vibratório para libertar-me daquela perigosa e envolvente sintonia.

(...) Agora posso dizer que, mesmo aqueles que já têm o hábito da vigilância e da oração, e buscam o caminho reto, terão imensas imensas dificuldades para se manterem imunes ao terrível envolvimento.

Quanto à criatura humana invigilante, não há defesa; facilmente será arrastada pelo violento turbilhão dos instintos inferiores, particularmente se, no íntimo, ela também se compraz em viver essas sensações!



(...) Não podemos olvidar os apontamentos de João Evangelista, quando nos alertou no livro do "Apocalipse" que, no final dos tempos [não o fim do mundo, mas a passagem evolutiva do nosso planeta do estado de 'provas e expiações' para 'regeneração' ], as forças do mal [espíritos moralmente inferiores que insistem em permanecer em tal estado] seriam soltas; elas viriam cheias de fúria, pois sabiam que lhes restava pouco tempo [reencarnarão em mundos menos evoluídos] e que, permitido fosse, até "os escolhidos" seriam arrastados, tal a força do magnetismo primitivo que faz com que aflore em cada um os instintos inferiores.

(...) Segui em direção ao Rio de Janeiro; naquele momento regurgitavam nas avenidas os blocos e escolas em desfile faraônico.
Palhaços de Carnaval (século XVII), pintura de Willem Cornelisz Duyster.

(...) Notei nas ruas a presença de espíritos das mais diversas categorias: desde os desorientados (agora mais desorientados ainda!), zombeteiros, galhofeiros, brincalhões que serviam àqueles que comandavam a turba desencarnada, para atingir seus propósitos. Por toda parte, era flagrante a presença maciça de irmãos menos felizes que se misturavam com a turba encarnada. 

Três Bufões do Carnaval (gravura de 1642).

(...) Saímos para as avenidas onde desfilavam as escolas. Apesar da beleza aparente, o que se escondia por trás das fantasias, alegorias e do rufar dos tambores e tamborins, eram quadros preocupantes de espíritos desequilibrados, que encontravam material farto e abundante para materializar seus desejos inferiores em consonância com a maioria da platéia.

(...) A noite já avançava madrugada a dentro e em breve o sol estaria novamente retornando, para espantar as trevas, inundando o planeta de alegria e de luz. Elevamo-nos ao espaço, deixando para trás o barulho ensurdecedor da folia carnavalesca.

(Partes do texto do Espírito Irmão Virgílio. Médium Antônio Demarchi, com adições)
Fonte: http://jensoares.blogspot.com.br/p/o-carnaval-sob-visao-espirita.html
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